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Amor fraternal pode ser compreendido como o amor universal ou espiritual — aquele que, por sua própria natureza, é amplo, inclusivo e sem fronteiras.

Para entendê-lo em sua plenitude, porém, é preciso percorrer o caminho de dentro para fora, começando pelo lugar onde o amor primeiro se aprende: o lar.

O berço do amor: a família

De forma quase mecânica, estrutural, é no núcleo familiar que o amor dá seus primeiros passos em nós. Sem os cuidados de pai, mãe e irmãos, não teríamos sequer condições de nos manter no corpo físico. Mais do que isso, quando livre de feridas profundas, a família é o primeiro cenáculo de imagens reconfortantes — generosas, acolhedoras — que se gravam no subconsciente e, pela lei da evolução e da expansão, transbordam naturalmente para fora, segundo o desejo divino.

Esse laço, tão humano em sua aparência, revela-se muitas vezes de uma profundidade espiritual surpreendente. Nas casas espíritas, junto às mesas mediúnicas — como no Centro Espírita Bezerra de Menezes —, é comum que, no tratamento de espíritos sofredores presos a laços terrenos, apenas a evocação de entes queridos seja suficiente para transformar uma situação de angústia no além. Tios, irmãos, avós: esses nomes funcionam, em muitos casos, como uma manifestação viva do amor divino, na medida em que são eles mesmos que vão ao encontro daqueles que sofrem no mundo invisível.

Essa força é belamente ilustrada no livro No Mundo Maior, de André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier. No capítulo 18, intitulado “Velha Afeição”, André Luiz — já em estágio avançado no plano espiritual — participa de uma expedição de socorro às regiões inferiores. Lá, reencontra seu avô Cláudio, há cerca de quarenta anos estacionado numa zona de trevas e perturbação após a desencarnação. O velho não reconhece de imediato o neto, mas o laço de afeto construído na infância é forte o suficiente para abrir caminho: André Luiz o envolve em fluidos benéficos e promove sua retirada daquela condição dolorosa — uma tocante demonstração da lei do amor em ação.

Vemos, portanto, que, embora limitado numa concepção mais ampla e universal, o amor familiar — muitas vezes datado de vidas passadas — é forte o suficiente para atuar como uma verdadeira boia salvadora para aqueles que sofrem.


O amor que se expande

Mas o amor fraternal não para nas portas de casa. Ele se estende, naturalmente, para vizinhos, colegas de trabalho, grupos de estudo, comunidades próximas e distantes — e por que não para outros continentes? Afinal, todos nós, independentemente do credo, da cor da pele ou do gênero, somos oriundos da mesma fonte: o Pai Celeste.

O caminho para essa estrada começa, contudo, de dentro. Começa com o autoconhecimento, com a reforma íntima. Como amar ao próximo se nem sequer nos amamos? Como seguir o mandamento de Cristo — “Amai-vos uns aos outros como a si mesmos” — se continuamos a fazer coisas que nos prejudicam?

Amar a si próprio não é gastar fortunas em salões de beleza, fazer cirurgias plásticas ou adquirir o carro ou o celular mais moderno. É, sobretudo, deixar de fazer o que prejudica a alma — e, ao mesmo tempo, cultivar o que favorece o progresso espiritual: boas amizades, leituras edificantes, meditação, orações de gratidão, independentemente das circunstâncias que estejamos atravessando.


O desapego como porta do amor universal

O amor fraternal é, em sua essência, uma forma de desapego. Quando deixamos de concentrar foco total e exclusivo em nosso próprio círculo íntimo e passamos a oferecer mais de nós — tempo, energia, recursos, talento profissional — a pessoas desconhecidas, algo maior começa a operar. Nossa inteligência, direcionada para o bem, para o progresso e para a salvação do próximo, torna-se um canal através do qual Deus se manifesta àqueles que ainda não acreditam em Sua existência.

A visita a asilos, o trabalho em entidades sem fins lucrativos, o voluntariado, as obras de caridade — espíritas ou espiritualistas — expandem a consciência. E, pela lei da ação e reação, a pessoa que assim se comporta é beneficiada com abundância, prosperidade real e liberdade. Pode parecer paradoxal: numa lógica cartesiana, quem mais trabalha para si mesmo deveria ser o mais beneficiado. Mas está escrito:

“Buscai, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas.” — Mateus 6:33

Buscar a alegria e a satisfação da vontade do Pai Celeste, vivendo e atuando em harmonia com o amor universal, é o caminho pelo qual as bênçãos terrenas chegam — talvez de forma lenta, mas segura — como verdadeiros presentes do céu para nosso consolo, conforto e paz.


O amor pelos que parecem inimigos

Por último, e não de forma menor, o amor fraternal inclui também aqueles que aparentemente são nossos inimigos. Esta é, sem dúvida, a parte mais difícil. Às vezes, não é preciso ir longe para encontrá-los: eles podem nascer dentro de nossas próprias famílias — e, na maioria das vezes, estão lá. Mas se lá estão, é pela misericórdia divina, para que tenhamos uma segunda, terceira, quarta chance de demonstrar amor, perdão e reconciliação, reparando erros e faltas cometidos no passado.

Dizemos aparentemente inimigos porque, no fundo, aqueles que nos odeiam ou tentam nos prejudicar nada mais são do que pessoas que precisam de auxílio. São, muitas vezes, consideradas doentes pela espiritualidade avançada. Se estivessem em condição realmente superior à nossa, estariam no céu — não aqui, neste mundo de provas e expiação.

Uma técnica simples e poderosa para colocar o amor universal em ação é orar por eles. Uma oração que pode servir de inspiração:

“Pai, expande minha consciência, expande meu coração para que ele possa incluir tanto entes queridos quanto aqueles que precisam de ajuda. Abençoa [fulano de tal] para que ele receba uma gota do Teu amor. Permite que eu seja um canal por onde passam Tuas energias curativas, misericordiosas e fraternais, e que haja equilíbrio e paz entre nós.”


O amor como energia viva na natureza

O amor fraternal não é apenas um sentimento que carregamos no coração. Ele é uma energia presente em toda a natureza — vem do alto, permeia o criado e mantém tudo o que existe. Por isso se diz que Deus é amor: não apenas porque criou, mas porque sustenta toda a criação por meio e por causa do amor.

Dos planos espirituais mais elevados até a matéria mais densa, essa energia é transferida por seres espirituais — encarnados ou desencarnados — e por consciências que nunca precisaram encarnar, atuando junto à natureza em silenciosa dedicação.

Duas belíssimas manifestações do amor na natureza nos são dadas como símbolo: a rosa e o sol.

A rosa só chegou à humanidade depois que o amor espiritual começou a existir na Terra — antes, existia apenas no plano espiritual. Seu frescor, aroma, beleza e irradiação são expressão do amor em forma visível. O sol, por sua vez, brilha para todos: tanto para um cristal quanto para um carvão. Seu brilho não é restritivo nem seletivo — ele se irradia igualmente. Mas somente o cristal o reflete e o espelha de volta ao mundo.

Que possamos, dia após dia, tornar-nos mais cristal e menos carvão — refletindo o amor universal em nosso cotidiano — até que chegue o dia em que nos reconheçamos, de verdade, como filhos de um mesmo Pai que nos criou e nos chamará de volta ao Seu Reino, mais cedo ou mais tarde.

Referências

KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Tradução de Guillon Ribeiro. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1864. (Base doutrinária para os conceitos de amor, caridade e reforma íntima abordados no texto.)

XAVIER, Francisco Cândido (pelo Espírito André Luiz). No Mundo Maior. 1.ª ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 1947. Cap. 18: “Velha Afeição”. (Narrativa do reencontro de André Luiz com seu avô Cláudio nas regiões inferiores do plano espiritual, utilizada para ilustrar a força dos laços familiares no resgate espiritual.)

BÍBLIA SAGRADA. Evangelho de Mateus, 6:33. (Citação direta: “Buscai, pois, em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça, e todas essas coisas vos serão acrescentadas.”)

BÍBLIA SAGRADA. Evangelho de Mateus, 5:44. (Citação do mandamento de Cristo: “Amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem”, base direta do trecho final do texto sobre o amor fraternal estendido aos adversários.)

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