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A tentação foi originalmente implantada por Lúcifer nesta parte da criação. Ao descer do plano divino — no qual ele próprio era um dos grandes líderes — afastou-se da pureza e da altura do Alto, tornando-se progressivamente mais escuro e denso, até desenvolver vontade própria de se igualar a Deus e desviar a atenção da vontade divina para tudo aquilo que atrapalhasse o desenvolvimento natural do espírito humano.

No livro  do Juízo Final, de Roselis von Sass, esta descreve com minúcias como, por meio de seus asseclas, Lúcifer conquistou primeiramente as mulheres — então líderes naturais do gênero humano — e, por intermédio delas, alcançou toda a humanidade. Homens dotados de mediunidade, que sempre existiram na Terra, também foram seduzidos pelo engodo e pela mentira.

Uma das primeiras formas clássicas dessa tentação está registrada na história como o culto do falo (a glorificação do órgão masculino humano), acompanhado da exibição do corpo nu ou semi-nu das mulheres em festas onde se misturavam ópio e outras drogas nas bebidas dos participantes de rituais sensuais. Não por acaso, há milênios praticamente todas as almas encarnadas carregam os germes da tentação — sementes que, mais cedo ou mais tarde, conforme a experiência e a oportunidade, voltam à tona para testar novamente o caráter da pessoa.

Não há necessidade de explicar em detalhes o que seja a tentação, pois cada adulto já a conhece de perto. Basta lembrar que ela se aloja nos apetites sexuais desordenados, nos excessos de alimentação, na preguiça, no apego ao luxo e aos confortos materiais, entre tantos outros disfarces. A satisfação desses apetites traz, muitas vezes em curto prazo, desgaste, perda de vitalidade e consequências funestas para a honra do ser — os pecados bíblicos, como aqueles descritos em Provérbios 6:16-19:

Olhos altivos (soberba); língua mentirosa; mãos que derramam sangue inocente; coração que maquina pensamentos perversos; pés que se apressam a correr para o mal; testemunha falsa que profere mentiras; aquele que semeia contendas entre irmãos.

Diante disso, percebe-se que o pecado não é falha integral do ser humano: ele foi imputado, desde a origem, pelo anjo decaído, e apenas “aceito de bom grado” pelas pessoas. De certa forma, esse processo ainda se repete, uma vez que muitos desejos, obsessões e prazeres — conforme afirma a literatura espírita e espiritual — têm origem em espíritos obsessores, que aproveitam as brechas da falta de vigilância para tentar a pessoa.

Por outro lado, não se deve cair no erro oposto, de imaginar que pecamos sempre por culpa dos espíritos. Muitos dos que procuram socorro em casas espíritas ou junto a médiuns já trazem erros, falhas e maus costumes literalmente acomodados no cérebro, formando verdadeiros modelos de comportamento ou hábitos automáticos — uma segunda natureza que precisa ser desfeita com paciência e disciplina.

A esse respeito, O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec, no Cap. 8 — Bem-Aventurados os Puros de Coração, no item sobre o pecado por pensamento e o adultério, traz:

“Ouvistes que foi dito aos antigos: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo que todo o que olhar para uma mulher, cobiçando-a, já no seu coração adulterou com ela.” (Mateus, V: 27-28)

Com isso percebemos que a exigência moral e ética do Espiritismo é alta: começa em frações de segundo, no pensamento, antes mesmo de se manifestar em atos. Para que tal nível de exigência se concretize, é preciso desenvolver hábitos opostos àqueles da tentação — e não simplesmente negá-los ou voltar-se a eles raivosamente, o que apenas alimenta o ciclo do desejo reprimido. A oração, a meditação, os mantras, a leitura do Evangelho e dos romances espíritas ajudam a compreender os laços que nos prendem à matéria e aos dramas da encarnação, substituindo, pouco a pouco, o velho hábito pelo novo.

Embora alguns espíritas falem da necessidade de múltiplas vidas como algo inevitável, acreditamos que a reencarnação se deve, em grande parte, ao apego à matéria — à condescendência com os desejos da carne e com os prazeres que o corpo oferece, sejam da alimentação, do sexo, da bebida, dos jogos ou da luxúria. Cada laço afrouxado em vida é um peso a menos no momento da grande passagem.

Uma medida eficaz contra as tentações que o planeta nos oferece é buscar a comunhão com o Divino. Ao orar e meditar, pode-se firmar como mantra:

“Pai, que Tu sejas a maior de minhas tentações; livra-me da ilusão da matéria, pois só em Ti há a verdadeira paz e alegria.”

A beatitude, a paz interior, a clareza, a sobriedade e a alegria duradoura caminham ao lado da sabedoria e do discernimento e daqueles que passam horas em comunhão com Deus. São conquistas de longo prazo, e vêm naturalmente ao encontro de espíritos — encarnados ou desencarnados — que buscam a maturidade espiritual, o controle emocional e o apreço aos bons costumes.

Nessa mesma linha, romances espíritas como Ninguém é de Ninguém e Amanhã a Deus Pertence, de Zibia Gasparetto, ou ainda Nosso Lar, psicografado por Chico Xavier sob a inspiração do espírito André Luiz, mostram com clareza que aqueles que desencarnam costumam atravessar momentos de difícil transição — em boa parte devido ao apego a relacionamentos, bebidas, cargos, casa e outros confortos típicos da matéria. Por que não amenizar esse apego desde já, voltando o olhar para o lado luminoso do espírito por meio da oração, da prece e da meditação?

Como espíritos encarnados que se esforçam para o bem, temos muito mais força do que qualquer tentação que algum espírito menos esclarecido possa colocar diante de nós. Basta vivermos sob aquela conhecida exortação do Cristo: “Vigiai e orai” (Mateus 26:41).

E aqui retornamos ao princípio: se a tentação foi implantada por Lúcifer nesta parte da criação, ela não é, e nunca foi, a nossa verdadeira herança. No fundo, a tentação não passa de um engodo — um substituto barato para algo infinitamente melhor que o Divino tem reservado a nós, seus filhos e legítimos herdeiros. O anjo decaído pôde plantar a semente do desvio, mas não lhe foi dado o poder de colher nossas almas: essa escolha permanece, dia após dia, em nossas próprias mãos. Quando reorientamos o coração para o Pai, a sedução perde brilho, o engano perde força, e descobrimos, com serena surpresa, que aquilo que parecia tão atraente nada mais era do que sombra projetada sobre a luz. A verdadeira herança que nos cabe é essa luz — e ela nos espera, paciente, do outro lado de cada renúncia, de cada prece sincera, de cada instante em que escolhemos vigiar e orar.

Referências

(¹) VON SASS, Roselis. O Livro do Juízo Final. Ordem do Graal na Terra.

(²) BÍBLIA SAGRADA. Provérbios 6:16-19. Tradução de João Ferreira de Almeida.

(³) KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Cap. 8 — Bem-Aventurados os Puros de Coração. 1ª ed.: Paris, 1864.

(⁴) BÍBLIA SAGRADA. Evangelho de Mateus, 5:27-28 e 26:41. Tradução de João Ferreira de Almeida.

(⁵) GASPARETTO, Zibia. Ninguém é de Ninguém. Editora Vida & Consciência.

(⁶) GASPARETTO, Zibia. Amanhã a Deus Pertence. Editora Vida & Consciência.

(⁷) XAVIER, Francisco Cândido (psicografia); ANDRÉ LUIZ (espírito). Nosso Lar. Federação Espírita Brasileira (FEB), 1944.

 

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