Existe em nós, sutilmente instalada na arquitetura do cérebro humano, uma passagem. Um portal discreto, mas vital, que conecta a matéria densa do corpo físico aos planos mais elevados da consciência espiritual. Três grandes mestres do pensamento espiritualista cristão – cada um observando a partir de sua própria lente mística – reconheceram essa ponte sagrada, embora a tenham descrito através de diferentes aspectos anatômicos e espirituais.
A Glândula Pineal: A Lâmpada do Espírito
Nos estudos transmitidos por Emmanuel através de Chico Xavier, encontramos a primeira descrição dessa passagem: a glândula pineal, pequena estrutura localizada no centro geométrico do cérebro. André Luiz, o médico desencarnado cujas narrativas espirituais iluminaram tantos corações, descreve sua experiência ao observar esta glândula do plano astral. Para ele, a pineal resplandecia como uma lâmpada acesa – uma flor de pétalas luminosas que se desabrochava com particular intensidade nos trabalhadores mediúnicos.
Mais do que um simples regulador de hormônios, André Luiz revela que a glândula pineal funciona como o principal conector entre o ser encarnado e o mundo espiritual. Embora relacionada ao controle de fluidos e energia sexual, sua função essencial transcende a biologia: ela regula forças espirituais e hormônios psíquicos, estabelecendo a comunicação entre dimensões. Sua atividade varia conforme o nível de maturidade moral, evolução espiritual e os compromissos assumidos em vidas passadas – como se cada alma trouxesse consigo uma calibragem única para essa antena divina.
O Cerebelo: O Instrumento Esquecido
Abdrushin, em suas profundas reflexões sobre a natureza humana, direciona nossa atenção para outra estrutura: o cerebelo, localizado na parte posterior do cérebro. Este órgão, segundo seus ensinamentos, serve como o verdadeiro instrumento do espírito, o canal através do qual a intuição flui e conecta o mundo espiritual ao cérebro humano.
Mas aqui reside um alerta grave. A humanidade, em sua busca desenfreada pelo conhecimento intelectual, transformou o intelecto em ídolo. Durante milênios, concentrou toda sua energia educacional no desenvolvimento do cérebro anterior – a sede do pensamento lógico, analítico e temporal. Esta ênfase unilateral provocou consequências profundas: o cerebelo, negligenciado e oprimido pelo desenvolvimento excessivo das áreas frontais, enfraqueceu-se progressivamente.
O resultado é catastrófico em suas implicações. O cerebelo enfraquecido não consegue mais funcionar plenamente como receptor da intuição espiritual. Durante o sono, quando o espírito naturalmente se desvincula para vivenciar outras dimensões, as fortes irradiações do cérebro anterior – que nunca cessam completamente – invadem o sensível cerebelo. Cria-se então uma mistura confusa entre as vivências genuínas do espírito e os resíduos do pensamento intelectual, originando os sonhos caóticos e sem sentido que tanto caracterizam nossa era.
Abdrushin estabelece uma distinção fundamental: cada intuição forma imediatamente uma imagem, e nessa formação participa diretamente o cerebelo. Este conecta-se ao cérebro anterior, de onde surgem os pensamentos ligados ao espaço e ao tempo – a matéria-prima do intelecto. Quando o cerebelo está fortalecido, a intuição flui clara e cristalina, traduzindo em imagens compreensíveis as mensagens do mundo espiritual. Quando está atrofiado, o ser humano torna-se praticamente inacessível às advertências e ensinamentos que tentam alcançá-lo através dessa via sagrada.
A Medula Oblongata: A Boca de Deus
Paramahansa Yogananda, mestre da tradição hindu adaptada ao coração cristão, apresenta-nos uma terceira perspectiva que completa harmoniosamente este mosaico espiritual. Ele dirige nossa atenção para a medula oblongata – estrutura localizada na base do cérebro, conectando-o à medula espinhal.
Em uma das mais belas metáforas místicas, Yogananda interpreta as palavras de Jesus: “O homem não vive só de pão, mas de toda palavra que procede da boca de Deus”. A “boca de Deus”, revela ele, é precisamente a medula oblongata. Esta é a porta divina através da qual flui continuamente a energia vital – o prana universal – que sustenta não apenas o corpo físico, mas toda a nossa existência.
Segundo os ensinamentos que Yogananda transmitiu, durante a criação, a energia do Espírito divino moveu-se em diferentes taxas vibratórias, individualizando-se em pensamento consciente e condensando-se progressivamente até criar a matéria, incluindo nossos corpos. A medula oblongata permanece como o portal através do qual essa energia primordial continua fluindo, renovando-nos a cada instante.
Yogananda não se limitou à teoria. Desenvolveu técnicas práticas – os Exercícios de Energização, para reativar conscientemente essa ponte adormecida. Ele percebeu que o corpo humano funciona como uma bateria elétrica que pode ser recarregada diretamente através da vontade, canalizando a energia cósmica que entra pela medula oblongata. Nestes exercícios, o praticante aprende a sentir o fluxo vital entrando por essa porta sagrada e a direcioná-lo conscientemente para diferentes partes do corpo, tonificando órgãos e até retardando processos naturais de envelhecimento.
A Convergência Harmônica: Uma Verdade, Múltiplas Facetas
À primeira vista, poderia parecer contraditório que três mestres espirituais apontem para estruturas anatômicas diferentes – pineal, cerebelo e medula oblongata. Mas esta aparente divergência revela, na verdade, uma verdade mais profunda sobre a natureza da anatomia espiritual.
Do ponto de vista físico, estas estruturas são distintas, embora intimamente relacionadas e anatomicamente próximas. O cerebelo repousa dorsalmente sobre a medula oblongata, ambos compartilhando a região posterior do crânio. A glândula pineal, embora mais central, conecta-se funcionalmente a todo este complexo através de intrincadas redes neurais e energéticas.
O que os mestres espirituais percebem não é uma correspondência exata e limitada entre um único órgão físico e um único centro espiritual. O corpo etérico – essa ponte sutil entre o astral transcendente e o físico material – possui a mesma forma geral do corpo denso, mas não mantém uma relação mecânica de um para um com as estruturas anatômicas.
Pense em uma luz única atravessando um prisma: ela se dispersa em múltiplas cores, mas permanece sendo uma só luz em sua essência. Da mesma forma, o que os videntes espirituais percebem como “o centro de recepção e transformação” manifesta-se fisicamente através de múltiplas estruturas interconectadas:
– A **glândula pineal** expressa o aspecto da conexão consciencial direta, a antena que sintoniza frequências espirituais
– O **cerebelo** manifesta o aspecto imagético e intuitivo, traduzindo impressões espirituais em símbolos compreensíveis
– A **medula oblongata** representa o aspecto energético vital, o canal pelo qual o prana universal alimenta continuamente nossa existência
Todos os três mestres concordam em pontos essenciais que transcendem as diferenças anatômicas:
**Primeiro**: existe um processo de transformação, no qual energia espiritual superior entra no organismo, é traduzida e manifesta-se no corpo físico e na consciência.
Segundo: este sistema encontra-se adormecido ou enfraquecido na maioria dos seres humanos. André Luiz observa que o potencial da pineal “dorme embrionário” em muitos. Abdrushin lamenta o cerebelo atrofiado pelo excesso de intelectualismo. Yogananda reconhece a necessidade urgente de reativar a medula através de práticas conscientes.
Terceiro: todos enfatizam a importância da região posterior do cérebro e sua conexão com os plexos – centros energéticos que permeiam todo o organismo, especialmente o plexo solar, onde intuição e emoção se encontram.
Caminhos Distintos para o Despertar: Diferentes Estratégias de Ativação
Embora concordem quanto à existência e importância dessas pontes cerebrais com o espiritual, os três mestres divergem significativamente em suas abordagens para ativá-las e fortalecê-las. Esta diferença revela, na verdade, a riqueza de caminhos disponíveis ao buscador sincero.
Abdrushin e Emmanuel: O Caminho da Transformação Moral
Tanto Abdrushin quanto os ensinamentos transmitidos por Emmanuel através de André Luiz enfatizam primordialmente a reforma íntima e a vivência moral como métodos de ativação dessas estruturas espirituais. Para eles, não existem atalhos técnicos ou exercícios mecânicos que possam substituir a genuína transformação do caráter.
A ativação da glândula pineal, segundo André Luiz, está intrinsecamente ligada ao nível de maturidade moral e evolução espiritual do indivíduo. É através do esforço contínuo pela bondade, pela caridade sincera, pelo domínio das paixões inferiores e pelo cultivo das virtudes que essa glândula progressivamente desperta. Os compromissos assumidos em vidas passadas – aquele patrimônio espiritual construído através de múltiplas existências – também determinam o grau de receptividade que cada um possui.
Abdrushin segue caminho semelhante ao alertar que o cerebelo foi atrofiado não por falta de exercícios físicos, mas pelo desequilíbrio espiritual da humanidade – o culto excessivo ao intelecto em detrimento da intuição. A restauração dessa faculdade exige uma reorientação completa da vida: cultivar a humildade intelectual, honrar a voz interior da intuição, viver em harmonia com as leis espirituais e buscar o equilíbrio entre razão e sentimento. Trata-se de um trabalho de toda uma existência, uma jornada gradual de refinamento consciencial.
Para ambos, a vida exemplar, pautada em princípios cristãos de amor ao próximo, perdão, compaixão e busca pela verdade, é o verdadeiro método de ativação. A meditação e a oração são importantes, mas como ferramentas de conexão espiritual genuína, não como técnicas mecânicas. O serviço desinteressado, o trabalho mediúnico responsável (no caso de Emmanuel) e a vivência dos valores morais superiores criam as condições energéticas para que essas pontes se fortaleçam naturalmente.
**Yogananda: O Caminho da Técnica Consciente**
Paramahansa Yogananda, embora também valorize a vida moral e espiritual, oferece algo distintamente diferente: técnicas específicas, práticas e sistematizadas para ativar conscientemente a medula oblongata e, através dela, revitalizar todo o organismo.
Seus Exercícios de Energização representam uma abordagem pragmática e direta. Yogananda compreendeu que o corpo humano funciona como uma bateria elétrica e pode ser recarregado através da vontade humana direcionada conscientemente. As técnicas envolvem:
– Concentração dirigida: Aprender a sentir a energia cósmica entrando pela medula oblongata.
– Tensão e relaxamento conscientes: Movimentos específicos de diferentes partes do corpo, sempre acompanhados de visualização energética
– Comando da vontade: Usar a força de vontade para direcionar o fluxo vital para órgãos específicos
– Respiração controlada: Técnicas de pranayama que regulam e amplificam o fluxo de prana.
Não se trata de mera ginástica ou exercícios físicos convencionais. Cada movimento é acompanhado de intensa concentração mental e visualização do fluxo energético. O praticante aprende a sentir concretamente a energia entrando pela “boca de Deus” e distribuindo-se pelo corpo segundo sua vontade consciente.
Yogananda também enfatizava a meditação profunda, particularmente técnicas como o Kriya Yoga, que trabalham diretamente com os centros espirituais da coluna vertebral em conexão com a medula. Mas diferentemente de Abdrushin e Emmanuel, ele não deixava isso apenas no plano abstrato da “vida espiritual” – oferecia métodos concretos, passos específicos, exercícios mensuráveis que qualquer pessoa dedicada poderia praticar diariamente.
Síntese: Complementaridade, Não Contradição
Essas diferentes abordagens não se contradizem, mas se complementam magnificamente. A perspectiva de Abdrushin e Emmanuel nos lembra que nenhuma técnica, por mais poderosa que seja, pode substituir a genuína transformação moral. Sem pureza de intenção, sem amor verdadeiro, sem o refinamento do caráter, os exercícios mais sofisticados produzirão resultados limitados ou até perigosos – poder sem sabedoria, energia sem direcionamento ético.
Por outro lado, Yogananda nos oferece ferramentas práticas para aqueles que, já comprometidos com o caminho moral, desejam também trabalhar conscientemente com suas estruturas energéticas. Suas técnicas democratizam, de certa forma, o acesso às experiências espirituais, mostrando que não precisamos esperar passivamente pela evolução gradual – podemos participar ativamente desse processo através de práticas disciplinadas.
Talvez a síntese ideal seja: viver a vida exemplar que Abdrushin e Emmanuel propõem, cultivando diariamente as virtudes e a reforma íntima, enquanto simultaneamente utilizamos as ferramentas práticas que Yogananda oferece para potencializar conscientemente esse trabalho. Moral sem técnica pode ser lenta; técnica sem moral pode ser perigosa. Juntas, formam um caminho completo e equilibrado.
O Chamado à Integração
O que emerge dessa tríplice perspectiva é uma compreensão mais completa e matizada de nossa natureza espiritual. Não precisamos escolher entre pineal, cerebelo ou medula – todas são facetas de uma mesma realidade sagrada. Juntas, formam um complexo sistema que pode estar mais ou menos ativo, mais ou menos receptivo ao mundo espiritual.
A sabedoria infinita do Criador dotou todos os seres humanos com este instrumento multifacetado. Ninguém está completamente desprovido dessa ponte – exceto em casos de grave enfermidade. Isso significa que não devemos nos menosprezar nem nos considerar distantes do espiritual. O potencial habita em cada um de nós, aguardando apenas as condições adequadas para despertar.
O cultivo dessa ponte exige equilíbrio. Não se trata de abandonar o intelecto – esse presente precioso que nos distingue – mas de não transformá-lo em tirano que oprime outras faculdades igualmente sagradas. A intuição precisa ser honrada tanto quanto a razão. O sentir, tanto quanto o pensar. A receptividade, tanto quanto a ação.
Práticas como a meditação, a oração sincera, o estudo espiritual, exercícios de energização e o desenvolvimento moral não são meros rituais ou obrigações. São, na verdade, métodos de ativação consciente dessas pontes adormecidas. Cada momento de quietude interior, cada ato de amor genuíno, cada busca sincera pela verdade fortalece essas estruturas sutis, tornando-nos progressivamente mais permeáveis à luz que constantemente bate à porta de nossa consciência.
Os três mestres – Emmanuel através de Chico Xavier, Abdrushin e Yogananda – oferecem-nos mapas complementares para a mesma jornada sagrada. Suas vozes harmonizam-se em uma sinfonia que aponta para nossa verdadeira natureza: somos seres simultaneamente materiais e espirituais, habitantes de dois mundos unidos por pontes vivas que pulsam discretamente no santuário silencioso de nosso próprio cérebro.
Cabe a nós, peregrinos conscientes nesta existência terrena, honrar essas pontes sagradas, cultivá-las com reverência e atravessá-las com coragem em direção à plenitude de nossa herança divina.
| Autor / Mestre | Glândula / Órgão | Função e Definição no Texto |
|
Emmanuel / André Luiz
(Via Chico Xavier) |
Glândula Pineal |
A Lâmpada do Espírito.
Funciona como o principal conector entre o ser encarnado e o mundo espiritual. Regula “hormônios psíquicos” e forças espirituais, estabelecendo a comunicação entre dimensões. É descrita como uma “antena divina” cuja atividade depende da maturidade moral. |
| Abdrushin | Cerebelo |
O Instrumento do Espírito.
É o canal através do qual a intuição flui e conecta o mundo espiritual ao cérebro. Responsável por traduzir a intuição em imagens compreensíveis. Atualmente encontra-se “atrofiado” na maioria das pessoas devido ao excesso de intelectualismo (foco no cérebro anterior). |
| Paramahansa Yogananda | Medula Oblongata |
A Boca de Deus.
É a “porta divina” por onde flui continuamente a energia vital (prana universal) que sustenta a existência. Atua como o ponto de entrada da energia cósmica, permitindo que o corpo seja “recarregado” como uma bateria através da vontade consciente. |
Bibliografia
Obras Espíritas e da Codificação Espírita
XAVIER, Francisco Cândido (Espírito Emmanuel). Missionários da Luz. Psicografado por Chico Xavier. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira (FEB), 1945.
Capítulo sobre a glândula pineal e observações do médico desencarnado André Luiz sobre as manifestações luminosas da epífise no plano astral
XAVIER, Francisco Cândido (Espírito André Luiz). Entre a Terra e o Céu. Psicografado por Chico Xavier. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira (FEB), 1954.
XAVIER, Francisco Cândido (Espírito André Luiz). Evolução em Dois Mundos. Psicografado por Chico Xavier e Waldo Vieira. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira (FEB), 1958.
Obras de Abdrushin
ABDRUSHIN (Oskar Ernst Bernhardt). Na Luz da Verdade: A Mensagem do Graal. Volume II. Ordem do Graal na Terra.
ABDRUSHIN. Na Luz da Verdade: A Mensagem do Graal. Volume I. Ordem do Graal na Terra..
Complementos sobre intuição versus intelecto e o papel do cérebro anterior
Obras de Paramahansa Yogananda
YOGANANDA, Paramahansa. Autobiografia de um Iogue. São Paulo: Self Realization Fellowship, 1946 (edição original em inglês); diversas edições em português.
YOGANANDA, Paramahansa. The Science of Religion. Los Angeles: Self-Realization Fellowship, 1920; edições posteriores revisadas.
Obras Complementares sobre Anatomia Espiritual
POWELL, Arthur E. O Corpo Etérico. Tradução. São Paulo: Editora Pensamento, edição original 1925.
